Documento elaborado a partir das respostas ao protocolo de triagem e do histórico relatado. Não constitui diagnóstico psicológico.
Sobre este documento. Este é um exemplo fictício, produzido para demonstrar a estrutura e a profundidade do relatório. A pessoa descrita não existe e nenhum dado aqui pertence a paciente real. Relatórios reais são sigilosos e nunca são divulgados, conforme o Código de Ética Profissional do Psicólogo (Res. CFP nº 010/2005) e a Resolução CFP nº 06/2019.
A conclusão deste caso vale para este caso. Nenhuma leitura de um caso fictício se transfere para o seu: reconhecer-se na história de M. não significa que a mesma recomendação valeria para você.
Cada instrumento responde a uma pergunta específica e tem um limite declarado. A coluna da direita registra onde cada um alcança, e onde não alcança.
| Domínio | Resultado | O que o instrumento alcança, e o que não alcança |
|---|---|---|
| TDAHASRS-18 | Alta | Rastreio de TDAH em adultos (OMS). Indica probabilidade de sintomas compatíveis; não diferencia TDAH de quadros que produzem queixa semelhante, o que é função dos blocos seguintes. Parte A com 5 de 6 itens em célula sombreada. |
| TEAAQ-10 | Abaixo do corte | Autism Spectrum Quotient, versão adulta em português (Allison, Baron-Cohen & Wheelwright; trad. Paula et al.). Instrumento traduzido, sem validação normativa brasileira. O escore orienta, não classifica. Resultado abaixo do ponto de corte reduz, mas não elimina, a hipótese; ver a ressalva sobre camuflagem na seção 04. |
| AnsiedadeGAD-7 | Moderada | Sintomas de ansiedade generalizada nas duas últimas semanas. Janela curta: não descreve padrão de vida inteira, e não distingue ansiedade primária de ansiedade secundária a outra condição. |
| HumorPHQ-9 | Moderada | Sintomas depressivos nas duas últimas semanas, incluindo item de ideação. Item 9 sem assinalação nesta aplicação; não equivale a avaliação de risco. |
| DivagaçãoMWQ | Elevada | Frequência de divagação mental espontânea. Mede o fenômeno, não a causa: divagação alta aparece tanto no TDAH quanto em quadros ansiosos e depressivos. |
| Regulação emocionalDERS | Elevada | Dificuldades de regulação emocional em seis subescalas. Aqui, escores mais altos em "estratégias" e "impulso"; escore preservado em "clareza". |
| Oscilação de humorHCL-32 | Negativo | Rastreio de episódios de humor elevado. Sensibilidade alta e especificidade limitada: serve melhor para afastar hipótese do que para sustentá-la, que é exatamente o uso feito aqui. |
| SonoEpworth | Limítrofe | Sonolência diurna. Não investiga causa do sono ruim nem substitui avaliação médica do sono, que é indicação separada quando o escore se sustenta. |
| ImpulsividadeBIS-11 | Elevada (não planejamento) | Três fatores, com norma clínica brasileira. A elevação se concentra no fator de não planejamento, não no motor, coerente com o padrão descrito na seção 02. |
| Devaneio excessivoMDS-16 | Não indicativo | Devaneio compulsivo e absorvente, distinto da divagação medida pelo MWQ. |
| Qualidade de vidaWHOQOL-BREF | Reduzida (psicológico) | Quatro domínios, pela OMS. A queda se concentra no domínio psicológico. |
| Uso de telasPIUQ-SF-9 | Não indicativo | Uso problemático de internet. Sem indicação de que a tela esteja organizando a queixa. |
Por que nem todos os dezesseis blocos entram. A triagem é adaptativa: cinco blocos são aplicados a todos e os outros onze só entram quando as respostas anteriores indicam.
Não aplicados nesta triagem: TAS-26 (alexitimia), LSAS-SR (ansiedade social), MASM e SASM (crises de sobrecarga): os quatro blocos que só entram quando o rastreio de TEA é positivo, o que não foi o caso aqui.
Linha do tempo do funcionamento: infância e escola, vida adulta, trabalho, relações e saúde.
M. relata que, na infância, nunca foi motivo de queixa comportamental. Descreve-se como "a menina quieta que vivia no mundo da lua": não atrapalhava a aula, não era chamada à coordenação, e o boletim se sustentava. Registra que aprendia com facilidade e que isso, por muitos anos, compensou a dificuldade de organizar o próprio estudo.
O relato marca uma virada no ensino médio e, sobretudo, na graduação, quando a demanda de autogestão aumentou e a estrutura externa diminuiu. Descreve trabalhos entregues no limite do prazo, noites em claro para compensar semanas paradas, e um esforço de organização que precisava ser refeito a cada poucos meses. Refere sensação persistente de estar "rendendo abaixo" do que conseguiria.
Na vida adulta, o padrão se mantém no trabalho: entrega, e entrega bem, mas ao custo de picos de esforço concentrados perto do prazo. Relata esquecimentos em tarefas de baixa complexidade, dificuldade de iniciar atividades sem urgência externa, e cansaço atribuído ao "esforço de parecer organizada".
Diagnósticos anteriores relatados. Transtorno de ansiedade generalizada aos 24 anos, com psicoterapia e medicação por período não especificado; episódio depressivo aos 29, também tratado. M. relata que os dois tratamentos produziram melhora (a ansiedade ficou mais manejável e o episódio depressivo remitiu), mas que a queixa de desorganização e de dificuldade de iniciar tarefas permaneceu igual nos períodos em que se considerava bem dos dois quadros.
O dado mais relevante desta seção não é a presença dos sintomas atuais, e sim a informação de que a queixa central persistiu durante os períodos de remissão dos quadros já tratados. É esse recorte que orienta a leitura das seções seguintes.
Ressalva: essa informação é retrospectiva e autorrelatada, sobre períodos de vários anos atrás. Ela organiza a leitura, mas não foi verificada por prontuário nem por informante, e é uma das razões da recomendação da seção 06.
O ASRS-18 resultou em faixa alta, com 5 dos 6 itens da Parte A em célula sombreada. Os itens de maior pontuação concentram-se em iniciação e organização de tarefas, não em hiperatividade motora. Padrão coerente com o histórico de apresentação predominantemente desatenta descrito na seção 02. O MWQ, elevado, acompanha esse achado.
Limite: o ASRS é rastreio. Isoladamente, ele indica que a queixa é compatível com TDAH; não indica que é TDAH. Os blocos seguintes existem para testar as alternativas.
GAD-7 e PHQ-9 em faixa moderada, ambos referentes às duas últimas semanas. São achados que pedem atenção clínica por si mesmos. A janela curta dos dois é o limite relevante aqui: ela descreve o estado atual, não alcança um padrão que o relato situa desde a adolescência, e o que sustenta a leitura desta triagem é a cronologia do histórico, não a janela dos instrumentos.
No item 9 do PHQ-9, M. não assinalou ideação suicida. O registro é do que foi respondido, não uma avaliação de risco: essa exige entrevista, e não foi realizada aqui.
DERS elevado, com concentração nas subescalas de acesso a estratégias e de controle de impulso, e com a subescala de clareza emocional preservada: a dificuldade relatada é de manejar a emoção, não de identificá-la.
O BIS-11 acompanha, e de forma informativa: a elevação está no fator de não planejamento, não no motor. É o perfil coerente com a apresentação predominantemente desatenta descrita no histórico, e não com um quadro de impulsividade generalizada.
O HCL-32 resultou negativo. O instrumento tem sensibilidade alta e especificidade limitada, o que o torna mais útil para afastar a hipótese do que para sustentá-la, e é assim que ele está sendo lido aqui. Não há, no material, indicação de episódios de humor elevado com duração e prejuízo compatíveis com espectro bipolar.
Epworth em faixa limítrofe. Não é achado que explique o quadro, mas também não é achado a descartar: sono insuficiente sustentado agrava desatenção independentemente da causa dela. Ver recomendação na seção 06.
Esta é a seção central do relatório. Aqui as hipóteses concorrentes são colocadas lado a lado: o que cada uma explicaria bem, o que nenhuma explica, e o que os dados favorecem.
A queixa que você trouxe (desatenção, desorganização, dificuldade de começar) é produzida por várias condições diferentes. Abaixo, cada uma das que este protocolo mediu, com o que ela explicaria e o que ela não explica.
Ansiedade em faixa moderada prejudica atenção sustentada, e é razoável supor que ela esteja hoje agravando a queixa. O que ela não explica é a cronologia: pelo seu relato, a dificuldade de organização precede o diagnóstico de ansiedade em cerca de uma década e se manteve nos períodos em que a ansiedade esteve controlada. Ansiedade como única explicação exigiria que a queixa acompanhasse a oscilação dela, e o relato descreve o contrário.
Sintomas depressivos em faixa moderada, que merecem acompanhamento. O que não sustenta essa hipótese como explicação principal é a cronologia: o episódio depressivo relatado aos 29 anos remitiu sem que a queixa de organização mudasse.
Essa é uma confusão frequente, porque labilidade emocional do TDAH e oscilação de humor do espectro bipolar se parecem por fora, e a condução clínica de cada uma é diferente. O HCL-32 resultou negativo e o relato não descreve episódios de humor elevado com duração compatível. Hipótese não sustentada pelos dados desta triagem.
Escore limítrofe de sonolência diurna. Não explica um padrão de vida inteira, mas pode estar somando ao quadro atual. É a única frente que merece investigação médica em paralelo, independentemente do que se conclua sobre o resto.
AQ-10 abaixo do ponto de corte. Resultado que, sozinho, decidiu não abrir os blocos de alexitimia, ansiedade social e sobrecarga. Registro a ressalva técnica: o AQ-10 é rastreio breve e traduzido, sem norma brasileira.
Há uma segunda ressalva que precisa constar. Mulheres autistas relatam níveis mais altos de camuflagem social do que homens autistas, diferença que não aparece entre pessoas não autistas (Hull et al., 2020, Autism 24(2):352-363), e apresentações femininas com mais camuflagem reduzem a sensibilidade de instrumentos de rastreio padrão (Dolfi & Tudose, 2025, J Med Life 18(8):710-720, revisão narrativa).
Na prática: o resultado não indica o espectro, e também não é suficiente para excluí-lo em definitivo. Isso está dito aqui para que você não leia mais do que o instrumento entrega.
O que sobra. Depois de percorrer as alternativas, a hipótese que continua explicando o conjunto, e sobretudo a cronologia, é a de TDAH de apresentação predominantemente desatenta, com ansiedade provavelmente secundária e mantida pelo esforço compensatório crônico. É uma hipótese, não um diagnóstico, e a seção seguinte diz o que falta para confirmá-la.
Em ordem de plausibilidade, com o grau de confiança de cada uma.
O que sustenta: rastreio em faixa alta com concentração em itens de iniciação e organização; divagação mental elevada; padrão descrito desde a adolescência, anterior aos demais diagnósticos; persistência da queixa durante a remissão da ansiedade e da depressão; história de bom desempenho inicial sustentado por facilidade de aprendizagem, com deterioração quando a demanda de autogestão aumentou. Trajetória que costumo ver em diagnóstico tardio, quando não há componente hiperativo chamando atenção mais cedo.
O que ainda falta: confirmação depende de entrevista clínica, de medida objetiva de desempenho atencional e executivo, e de informante que tenha convivido com você na infância. Nada disso é obtido por autorrelato.
Faixa moderada, com prejuízo atual real. A leitura mais coerente com a sua cronologia é a de ansiedade mantida pelo esforço compensatório crônico, o que não a torna menos importante, apenas muda a ordem do tratamento.
Achado limítrofe, de investigação independente. Não compete com as hipóteses acima; soma a elas.
Espectro bipolar (HCL-32 negativo, sem episódios compatíveis no relato) e transtorno depressivo como explicação principal (remissão anterior sem mudança da queixa). Espectro autista não indicado nesta triagem, com a ressalva do instrumento registrada na seção 04.
Limite deste documento. Esta leitura foi construída a partir de autorrelato e de instrumentos de rastreio, sem entrevista clínica, sem observação direta e sem informante colateral. Ela organiza o caso e orienta o próximo passo; não fecha diagnóstico, e não substitui avaliação neuropsicológica.
Recomendação: a avaliação neuropsicológica faz sentido no seu caso. Não porque o rastreio deu alto (rastreio alto sozinho não justifica), mas porque as explicações alternativas foram testadas e nenhuma delas dá conta da cronologia que você descreveu.
O que a avaliação completa responderia, e esta triagem não respondeu: se o desempenho atencional e executivo se confirma em medida objetiva, e não apenas em autorrelato; qual o perfil específico de prejuízo, que é o que orienta a intervenção; e se há componente de aprendizagem envolvido. São perguntas que exigem entrevista, testes padronizados e história de desenvolvimento com informante.
Em paralelo, e independentemente disso: vale levar o achado de sonolência diurna a um médico. Se houver sono fragmentado sustentado, tratá-lo pode alterar o próprio quadro atencional, e é melhor saber disso antes da avaliação do que depois.
Sobre a ansiedade: se você não estiver em acompanhamento no momento, retomá-lo não precisa esperar a avaliação. As duas coisas correm juntas.
O que este relatório não autoriza. Ele não fecha diagnóstico, não indica medicação e não serve como laudo para adaptação escolar, benefício ou processo. Ele organiza o caso e diz qual é o próximo passo com fundamento.
Declaração de interesse. Eu também ofereço avaliação neuropsicológica no meu consultório, e o valor desta triagem é abatido dela caso você siga comigo. A recomendação acima não vincula você a mim: este documento é seu e foi escrito para ser lido em qualquer consultório: leve-o ao psiquiatra, psicólogo ou neurologista que preferir.
Juliano Carmo
Psicólogo · CRP 18/7362Aviso: esta triagem não é diagnóstico psicológico. É uma orientação técnica elaborada por psicólogo habilitado a partir das informações fornecidas e dos instrumentos aplicados. Em sofrimento agudo ou risco imediato, ligue 188 (CVV, 24h, gratuito) ou procure o SAMU 192.
Este é o exemplo 1 de 2. Aqui a leitura percorre as alternativas e conclui que a avaliação é indicada. No exemplo 2, o mesmo protocolo chega à conclusão oposta: não é hora de investigar. Os dois são casos fictícios.